A criança nasce com espírito aprendiz

“As crianças trabalham sozinhas, conquistando a disciplina ativa ao mesmo tempo que a independência na vida prática, desenvolvendo progressivamente sua inteligência.”  Maria Montessori

Pág. 299 do livro Pedagogia Científica.


A criança que nasce possui adentro um espírito aprendiz. É natural dela observar, pesquisar e explorar. Ela nasce e ao abrir os olhos procura por foco de luz, pelo rosto da mãe. Poucos dias depois está atenta a todos os movimentos que a rodeiam. Seu olfato é aguçado, o paladar quer participar e o tato insiste em comandar. Tudo que vê pega, tudo que pega leva à boca. São formas prematuras de tentar descobrir.

Mais tarde vai tentar segurar e vai derrubar, vai quebrar, vai fazer experimentos que “não darão certo” aos nossos olhos, mas valiosíssimos em se tratando de intelecto e psicomotricidade. Ela vai destruir a sua flor preferida pra sentir o que acontece com a flor ao ser destruída (e o que acontece com ela ao destruí-la). Mais ainda: vai ficar atenta à reação de quem estiver por perto. Enquanto tudo isso acontecer, em milésimos de segundos, o cérebro fará inúmeras relações entre causa e efeito importantíssimas para sua própria progressão.

A criança nasce com espírito aprendiz. 

Ocorre que, infelizmente, podemos obscurecer este espírito ao aprisiona-lo em nossas expectativas.

Se achamos saber o que a criança deve fazer todo o tempo, o obscurecemos e o aprisionamos. Se tentamos direciona-la, escolher por ela, protege-la dos males que muitas vezes nem existem e que são frutos dos nossos medos, o obscurecemos e o aprisionamos.

Se queremos chamar a atenção dela para nós de toda forma: falando mais alto do que falaríamos com qualquer pessoa, chamando pelo nome dela inúmeras vezes mesmo a vendo concentrada em outra atividade, falando o que ela deveria fazer com aquele objeto que ela acabara de segurar em mãos pela primeira vez, o obscurecemos e o aprisionamos.

Aos poucos nossas ações inserem nela todo o nosso jeito de enxergar as coisas, as pessoas e o mundo.

Não raro “a vida social é um obscurecimento progressivo e a morte da vida natural que palpita em nosso íntimo”.

Se obscurecemos e aprisionamos o espírito aprendiz não respeitando nem o tempo, nem a vontade, nem a voz da nossa criança, não podemos esperar que ela cresça e se torne criativa, feliz e plena.

Mas se, ao contrário disso tudo, nos aquietarmos. Se ao contrário disso tudo, observarmos. Nos colocarmos como expectadores de um grande acontecimento (o transcender da criança). Se, ao falarmos, nunca interrompermos sua concentração. Se falarmos com calma, baixo e de igual para igual. Se explicarmos, mas dermos a oportunidade de pensamento e revelação. Se possibilitarmos. Se adaptarmos. Se ajudarmos ao invés de comandarmos,

aí sim

poderemos esperar

criatividade,

felicidade e 

plenitude

por toda a eternidade.


Lara Morais Nogueira